O Coletivo

Blog do escritor Juliano Rodrigues. Aberto a textos gostosos de quem quer que seja. Contato: julianorodrigues.escritor@gmail.com

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sugestão de leitura – COMO ESCREVER PARA WEB : elementos para a discussão e construção de manuais de redação online





FRANCO, Guillermo. Como Escrever para WEB : elementos para a discussão e construção de manuais de redação online. Knight Center for Journalism in the Americas. 200? Disponível em: 




Juliano Barreto Rodrigues

Livro escrito, essencialmente, para jornalistas. Mas o autor assegura que é proveitoso para a redação de todo texto a ser publicado na Web. Tem toda a razão, embora eu acrescente que é muito proveitoso para quem escreve o que quer que seja, em qualquer lugar ou suporte, não apenas na internet.

Por que apresento este livro em um blog de criação literária? Porque, dentre minhas leituras, considerei este um livro essencial, também, para quem faz literatura (principalmente a ser disponibilizada na Web). Traz uma radiografia do texto, uma visão de seus elementos, sempre com vistas a despertar imediatamente o interesse do leitor e a prendê-lo, fazendo com que o leia (e que também interaja, clicando para outras páginas disponíveis), e tenha, enfim, uma experiência positiva no contato com nosso site, ou blog, ou rede social. A radiografia, de que falei, faz com nós que escrevemos tenhamos um novo olhar sobre cada palavra, sua função, sua disposição, sobre as frases, parágrafos, o bloco do texto, etc. Parece que, de repente, o que víamos como um todo bom ou ruim passa a ser visto nas suas pequenas partes, ficando fácil identificar onde está o que é bom e o que é ruim, o que destacar, permitindo modificar, consertando o texto.

Na escrita para a Web, por causa da função dos textos e da peculiaridade do suporte em que são apresentados – a tela luminosa do computador –, os títulos, primeiras palavras, primeiras frases são fundamentais para captar e prender o leitor, que na Web escaneia a página antes de ser fisgado, decidindo-se a ler. Assim, intertítulos, parágrafos curtos, textos curtos, facilitam a leitura e contribuem para que um texto seja lido até o final. Para tornar o texto enxuto, conciso, cada palavra deve ser bem escolhida (curta, clara e exata), atraente e estrategicamente bem colocada. A ideia que mais chama a atenção deve vir primeiro. É uma escrita que têm muito de publicidade, de “vender” o texto.

O autor faz um histórico da utilização da pirâmide invertida, lembrando a importância do seu surgimento, o momento em que ela passou (antes do advento da internet) a ser considerada obsoleta, sendo rechaçada pelos jornalistas, até seu resgate, a partir da universalização da rede mundial de computadores.

Pirâmide invertida é uma técnica de hierarquização de conteúdo que consiste em colocar, logo no início do texto, as informações mais interessantes ou importantes, e ir decrescendo, nos outros parágrafos, para as menos importantes (contexto, detalhes secundários, etc.). A pirâmide invertida horizontal traz a mesma ideia para dentro de cada parágrafo, levando o redator a colocar o prioritário na primeira frase, nas primeiras palavras, e ir decrescendo para as informações menores.

Guillermo Franco considera que, talvez, o modelo de pirâmide invertida não seja interessante para o artista, o escritor de ficção, o literato, o cronista, nem para quem faz um certo tipo de jornalismo literário. Mas, na minha opinião, podemos aproveitar, mesmo nas criações ficcionais, muito do que ele traz no livro – principalmente a questão de prioridades no texto. Ele trata do tamanho das frases, dos parágrafos... Para você dar ênfase a alguma ideia, por exemplo, é interessante alternar um parágrafo longo com um curto, ou colocar entre dois parágrafos longos um curto – o parágrafo curto provavelmente vai se destacar. O mesmo ocorre com as frases curtas: uma frase curta colocada entre frases mais longas, a frase curta vai chamar a atenção. O autor também trabalha a questão da adjetivação e do uso de adverbios, observações que podem ser aproveitadas por quem escreve literatura ou qualquer outro gênero.

Respeitado o bom senso e a questão de conveniência, dá para aproveitar na criação literária muito do que é apresentado no livro. Da comparação consciente entre as diferenças (técnicas, de estilo e de função) da escrita para Web e da escrita literária impressa, extrai-se elementos que podem se modificar ou misturar para fazer de um texto algo melhor.

A obra traz uma profusão de exemplos e comparações, que ensinam, na prática, como identificar um texto bom ou ruim para Web, permitindo melhorar ou fazer do zero algo mais adequado para internet. No livro há gráficos e tabelas que facilitam o entendimento e visão do todo. Um defeito a ser destacado é que, toda vez que o autor cita parte de outra obra ele faz a referência completa dentro do próprio corpo do texto, tornando enjoativo o fato do leitor ter que ver a mesma referência 10 ou 15 vezes. 

É um livro que veio atender à necessidade de formação específica de jornalistas (mas não se restringe a eles). Muito didático, as informações são todas muito pertinentes e importantes. É um livro em que o leitor realmente aprende aquilo a que ele se propõe. O fato de ser disponibilizado gratuitamente é ótimo, porque facilita o acesso.

Dentre os materiais que tratam de escrita para a WEB com os quais tive contato até agora, este é, com certeza, o mais direto, interessante e rico de conteúdo.

ANÁLISE CRÍTICA DO MINICONTO “VOCÊ LIGA PRA CÁ E CONTA QUAIS SÃO OS SEUS CAMINHOS EM SÃO PAULO”, DE BRUNO ZENI.






Por Juliano Barreto Rodrigues


Referência:
ZENI, Bruno. O fluxo silencioso das máquinas: pequenas iluminações asfálticas. São Paulo : Ateliê Editorial, 2002. Págs. 61-62.

O porquê da classificação como miniconto:
Miniconto, microrelato, termos ainda não pacíficos e de significado não unânime na academia, mas cada vez mais utilizados, definem: 1) textos concisos (mais do que simplesmente breves); 2) com narratividade que mostre a progressão de uma personagem de um determinado estado a outro; 3) Que cause um efeito (empático, antipático, de perplexidade, de estranhamento) – através de forçada adesão do leitor, causada por determinado uso deliberado da linguagem; 4) seja aberto, no sentido de não trazer todas as conclusões, deixando que o leitor as tire; 5) e exato, na medida em que o autor consiga direcionar o leitor ao efeito pretendido, e não a outro (por isso a escolha e posição das palavras e frases – da forma, enfim – são muito importantes neste gênero).
Todos esses elementos característicos estão presentes no texto estudado. Há ainda a falta de parágrafos, a forma de utilização do título, da pontuação, das palavras, que reforçam a classificação no gênero miniconto.


Contextualização do texto com o título do livro

O título do livro de Bruno Zeni é “O fluxo silencioso das máquinas”. No miniconto específico, um de vários, a ideia de fluxo das máquinas - coincidente com o título do livro - está presente, embora o texto contradiga o adjetivo “silencioso”, acrescido ao substantivo “fluxo” do título da obra. Sons estão referidos o tempo todo, inclusive no não mencionado toque do telefone celular que interrompe quatro vezes o trajeto do protagonista. Há música, som de carros, até de um helicóptero, comparado ao som da cidade: “Por que o barulho das pás de um helicóptero parece tão alto, como se tomasse conta da cidade, como se fosse mesmo o barulho da cidade?”
Há correlação direta com o subtítulo do livro, “pequenas iluminações asfálticas”: a pequenez do corriqueiro, da rotina, do dia-a-dia que se repete na cidade, no asfalto (no trânsito, neste texto em particular). São inúmeras as referências às luzes - de carros (que se deduz pelo horário em que se passa o enredo: início da noite), do telão luminoso de cristal líquido, da parede do prédio “cintilando” a imagem de uma mulher, dos giroflex das ambulâncias (também só sugeridos, não ditos).


Impressão visual

Um só bloco de texto desalinhado do lado direito, sem parágrafos, que tem como facilitador da leitura da mancha gráfica apenas as margens, as entrelinhas e a serifa da fonte utilizada. A escolha da edição casa bem com o conteúdo: o desalinhamento dá ideia do caos do tema, a falta de parágrafos insinua um fluxo constante, o bloco gráfico maciço remete à concisão do texto e, psicologicamente, ao peso e cansaço da situação vivida pelo narrador.


Título do texto

Há a diferenciação ortográfica da primeira frase, que funciona, assim, como título, a exemplo do que se ensina em manuais de escrita para web. O mecanismo serve para facilitar que se acrescente o texto em dispositivos móveis sem que haja desconfiguração de formatação. Também é meio para que o título não seja deslocado, e sim faça parte do próprio texto (sem ser necessário repetir sua informação no restante do corpo). Recurso muito usado no jornalismo digital (Bruno Zeni é jornalista).


O narrador

Narrador personagem em segunda pessoa, que faz com que o leitor se envolva de forma mais intensa com o que está lendo, percebendo as coisas de forma mais real, mais profunda. “Você” é o interlocutor do diálogo telefônico apenas insinuado. Para um leitor que não é de São Paulo, talvez a associação pessoal não aconteça. Noutros pontos, o narrador alterna entre segunda e primeiras pessoas do singular e do plural, o que reforça o tom dialogal:
[Eu] Não sei se propaganda de roupa [...]” – primeira pessoa do singular.
[...] vamos esperar um pouco” – nós, primeira pessoa do plural.
No entanto, na maior parte do tempo, o narrador está falando consigo mesmo, realizando um monólogo interior direto, demonstrando impressões internas sobre o trajeto, os sons, imagens, sensações e sentimentos que está tendo. Isso é trabalhado à maneira de um fluxo de consciência, evidenciado pela forma de pontuação e alternância desordenada entre informações objetivas e subjetivas, pela interrogação para si mesmo (“Por que o barulho das pás de um helicóptero parece tão alto, como se tomasse conta da cidade, como se fosse mesmo o barulho da cidade?”).
No final, há uma parte que representa bem claramente a fragmentação característica do fluxo de consciência: “Todo mundo na rua. Todo dia. Me tira daqui. Me leva pra casa. Me beija. Dezenove e cinquenta e dois. Pensando em nós dois. Depois que tudo isso passar. Vai ser melhor.”
O narrador é protagonista, sua narração se limita a seu ponto de vista, não tendo acesso aos pensamentos da outra personagem (não identificável se homem ou mulher. Se o leitor se identificar – como é possível pela narração em segunda pessoa – o sexo será o seu).


Parágrafos

Não há parágrafos explícitos para o leitor “respirar”. As frases são curtas. Uso dos dois pontos: 4 vezes, três deles muito próximos – aceleram a leitura. À rapidez do texto se contrapõe a lentidão do trânsito descrito, indicando a tensão (e estresse) entre a pressa do narrador personagem e a arrastada fluidez do tráfego.
Você liga pra [ou para] cá e conta [...]”. Usado 5 vezes. Cada entrada, em discurso indireto livre, corta a cena, fazendo as vezes de um parágrafo.
Em todo o texto, embora os deduzidos parágrafos (que não existem de fato) tragam basicamente a repetição da mesma frase inicial, a preposição pra é utilizada duas vezes, nas frases de início e de final apenas, trazendo uma contradição com a forma para (mais formal) utilizada no interior do texto. A sensação é de que usa o coloquial pra como se estivesse se referindo diretamente ao interlocutor no telefone e o para quando está falando consigo mesmo.
Esses “parágrafos” (embora não explícitos) vão diminuindo de tamanho (como a distância até o destino do narrador) até que o último seja apenas uma frase.
O texto começa e termina com elocução parecida, dando a ideia de um ciclo ruim que se repete todo o dia, mas há um alento na última frase que parece dar sentido ao caos que é suportado: “Você liga pra cá e conta como se ama em São Paulo”.


Transgressões à linguagem formal

Algumas transgressões da linguagem formal são evidentes, como o uso da preposição reduzida pra, que dá o tom coloquial ao escrito (embora seja forma dicionarizada e aceita pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa).
A Avenida Paulista segue parada” – transgressão. O verbo seguir se refere a passagem de tempo e não ao espaço da Avenida Paulista, como a frase parece mostrar.
Os carros andam um pouco melhor [...]” – para indicar “um pouco mais rápido”.
[...]o desespero das sirentes.”
Vai ser melhor” – em vez de será melhor.
Depois que tudo isso passar. Vai ser melhor”. A transgressão está na ênfase da pausa causada pelo uso do ponto em vez de vírgula.
Todo mundo na rua. Todo dia. Me tira daqui. Me leva pra casa. Me beija.” – uso de pontos, em vez de vírgulas. Há uma reclamação explícita. Transgressão da ordem formal: me leva, em vez de leve-me; me tira, em lugar de tire-me; me beija, e não, beije-me.


Outras considerações


Não fica claro se o interlocutor ao telefone está longe, ensinando melhores rotas, ou dizendo que também está em outra parte do trânsito paulistano, rumando para o mesmo destino.


O substantivo “São Paulo” é um eco recorrente no texto. Usado seis vezes em quatro parágrafos (apenas deduzidos, como já dito).


No rádio, temos música, pelo menos” – uma escapada, uma fuga a suavizar a espera. O “pelo menos” demonstra insatisfação de estar naquela situação. O “temos” reflete a alternância para 1ª pessoa do plural.


Há referências à meteorologia, distâncias, horários, cotações, datas, informações tão comuns e buscadas, com maior ou menor interesse (e de importância variável), por quem transita diariamente pelas cidades.


A imagem da mulher na parede impõe, “prende”, a atenção de quem passa. A potência daquele apelo publicitário é irresistível. Mais uma marca – além do congestionamento do trânsito, do tempo exíguo, dos excessos de sons, luzes, sensações e imagens, e da própria forma do texto – da Pós-modernidade.


Verbos, advérbios, substantivos e adjetivos

Parece haver uma escolha deliberada pela construção textual substantiva, tentando economizar em verbos, o que se reflete também na reduzida utilização de advérbios (de modo e intensidade) e locuções adverbiais em comparação com a profusão de adjetivos e locuções adjetivas. Visão rápida:
1. ADVÉRBIOS E LOCUÇÕES ADVERBIAIS
- segue parada
- parece tão alto
- lentidão
- andam um pouco melhor
- vai ser melhor
2. ADJETIVOS E LOCUÇÕES ADJETIVAS
- imagens líquidas
- imagens líquidas
- cores irreais
- parcialmente nublado
- céu avermelhado
- fluxo lento
- trânsito intenso, mas correndo
- figura enorme
- corpo inteiro
- quadris enormes
- mulher quente
- cores quentes
- mulher quente cintilando
- trânsito está completamente parado
- trânsito complicado
- trânsito bom

Chamam a atenção o uso de “líquidas” (adjetivo) e “cristal líquido” (substantivo composto) porque o primeiro uso conota, e o segundo denota, fluidez, coerente com fluxo de trânsito e, além disso, termos muito utilizados para tratar os fenômenos de convivência, comunicação, interação com o meio e com as tecnologias, na Pós-modernidade.


Uma tentativa de interpretação à guisa de conclusão

Toda interpretação é subjetiva, parcial e lacunosa, mas isto é característica da literatura: o sentido do texto só se completa na medida do leitor, que entende de uma ou de outra forma – conforme sua vivência, seu repertório de leitura, suas capacidades culturais, sociais, intelectuais, etc. – o que está lendo. Dito isso, parto para uma sucinta interpretação crítica, que exatamente por ser crítica, não vai isenta de juízo de valor.
A informação de 182 km de congestionamento já situa o leitor na sensação angustiante e claustrofóbica de estar preso no trânsito. O horário de pico intensifica a impressão. O conflito é exatamente a agonia da distância diante da vontade de chegar logo (a um ponto de chegada/destino, e a um alguém).
Diante da impotência diante da situação do tráfego, o impulso é só não parar, continuar indo, tentando não surtar, porque vai passar, vai ser melhor (parafraseando as penúltimas frases do texto).
O que se vê no trajeto, não por querer, mas obrigatoriamente, vai enchendo o tempo e as sensações do narrador personagem, ativo-passivo diante do trânsito. Os elementos descritivos são direcionados para imergir o leitor nessa atmosfera maçante do congestionado de fim de tarde. Os estímulos distraem o motorista e ele leva o leitor neste processo. Daí a importância da forma, mais do que do enredo neste caso, para causar uma impressão marcante do texto.
De tempos em tempos os telefonemas, que bem podem ser só reminiscências, sem estar acontecendo realmente – mas não foi assim que entendi – ressituam o narrador personagem no seu objetivo: chegar, encontrar aquela pessoa referida, sair da angústia.
É um texto de resignação momentânea, em que o indivíduo (micro) está engolido pela cidade (macro), na esperança de chegar àquilo que finalmente lhe interessa. Indica assim a esperança de todos os que vivem situação semelhante hoje em dia: ser um pouco mais dono de seu tempo, de seu espaço, de si.
O miniconto me remete ao conceito de sociedade do tempo livre, em que os sujeitos só se sentem inteiros e felizes no espaço temporal em que não estão obrigados ao trabalho, ou seja, em exíguos momentos de fuga e liberdade. Assim, o efeito que o texto me causou foi a angústia de reviver aquele tipo de situação ruim, com a pressa impotente diante da contingência do trânsito.
As escolhas do autor são impressionantes, foi muito competente na maneira de apresentar sua ideia. Independente de se gostar ou não do tema ou do entrecho, é um texto admirável.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

IMPÉRIO DO ESCRITO : A comunicação nunca foi tão textual




Juliano Barreto Rodrigues

Parece estranho, em uma sociedade da sensação1 (imagética e auditiva por excelência), tratar o escrito, supostamente silencioso e limitado aos caracteres tipográficos2, como protagonista da comunicação. Mas não soará absurdo se o observador descer à gênese das representações comunicacionais mais comuns hoje – sejam elas imagens, vídeos, músicas, games, combinações de meios, soluções midiáticas, etc. – e constatar que, na origem, há quase sempre um roteiro, um plano, um script, (escritos) a direcionar a realização concreta daquilo que será exposto.
Mais que isso, as redes sociais, especialmente o whatsapp que, instalado no aparelho de telefonia celular, permite comunicação gratuita3, em tempo real, com um ou vários interlocutores situados em diversos lugares, com possibilidade de envio de mensagens escritas, de chamadas remotas, arquivos de áudio, de imagem e vídeo, dão prova incontestável de que o textual tem tido precedência, em comparação com a fala, na preferência comunicacional das pessoas. Aqui é necessário que se faça um recorte populacional: este ensaio se refere às pessoas que têm acesso a tais tecnologias.
Entenda “textual” em sentido amplíssimo e polissêmico, empregado tanto para referência ao escrito como produto final quanto ao produzido a partir do escrito, seja vídeo, imagem, música, publicidade, etc.).
Um problema surge quando o senso comum afirma que “pensar é fácil, falar o que pensou é difícil e escrever é mais difícil ainda” e, a cada dia, prefere mais se comunicar por escrito. A hipótese que levanto é que a comunicação tem se complexificado e se transformado, em resposta à complexificação das relações (humanas, humanas com as tecnologias e humanas mediadas por tecnologias), sem que os comunicantes se deem conta nem sofram4. O escrito, por dar um momento a mais de reflexão antes da resposta – lapso que não se tem na conversa falada que, em regra, exige resposta imediata – seria mais conveniente nessa sociedade complexa e de distanciamento físico (as pessoas conversam sem estarem frente a frente e sem expor emoções que a fala revela) e, por isso estaria, instintiva e artificialmente5, sendo alçada ao protagonismo comunicacional.
A proposta deste ensaio é um tanto difusa, seguindo o fluxo irregular dos insights surgidos a partir da definição do tema. Para construir a lógica dos argumentos optei por tratar inicialmente três momentos não lineares e nem sempre realizáveis concomitantemente: o surgimento de uma ideia ou imagem, a transformação do pensamento em fala, a transformação do pensamento em texto. O sentido dessa primeira exposição é indicar a progressiva complexização que vai do primeiro ao terceiro momento (na verdade, os subdividirei mais). Para tanto, tomarei como referencial teórico mínimo o trabalho Pensamento e Linguagem, de Vygotsky (publicado originalmente em 1962).
Optou-se pelo gênero ensaístico, o que significa que levantei livremente hipóteses que necessitam uma posterior análise mais detida, que pode, quando realizada, inclusive refutá-las. É a defesa de um ponto de vista a ser aprofundado e validado, mas é ideia que procura eco e partidários entre alguns estudiosos da pós-modernidade, fato que denota sua importância.


Do Pensamento à Fala, da Fala à Escrita


Embora haja estudos psicolinguísticos, neurolinguísticos, cognitivos, filosóficos, literários, históricos, acerca dos processos de formação do pensamento, da fala e da escrita, não se trata de assunto adstrito ao âmbito científico, haja vista que tais processos são uma experiência comum, naturalmente vivida por todas as pessoas. Nesse sentido, pode ser difícil de teorizar cientificamente, mas fácil (intuitivo) de entender empiricamente e de falar sobre. Ou seja, não é preciso ser um especialista para falar do assunto.
Para definir melhor a discussão, é importante diferenciar duas expressões: pensamento e imaginação. Por imaginação entendam a formação de imagens6 mentais, seja reproduzindo/reconstruindo o que já foi visto, seja criando imagens novas ou associando imagens diversas. Já tratando de pensamento, me refiro ao processamento de ideias (imagéticas ou não), ao diálogo mental interior com fins a alguma conclusão. Vejam que quando falo no surgimento de imagens uso o verbo “criar”, quando trato de pensamento utilizo “processar”, indicando um trabalho de transformação (nesse caso amarrado, conforme demonstrarei, à linguagem).
Segundo VYGOTSKY (2002, pág. 3), até os dois anos de idade a imaginação é desvinculada da linguagem e, a partir da sua aquisição, serão cada vez mais indissociáveis. Isso é regra, principalmente em relação ao pensamento: adquirida a linguagem, todo pensamento se realizará, necessariamente e por toda a vida, por meio dela ou a partir dela. A “conversa” mental se dará, discursivamente, utilizando a língua internalizada conhecida.
Kleist, no seu fragmento intitulado Sobre a Elaboração Progressiva dos Pensamentos Através da Fala (1805) descreve o paralelo pensamento/linguagem, como partes interdependentes:

Die Reihen der Vorstellungen und ihrer Bezeichnungen gehen nebeneinander fort, und die Gemütsakte für eins und das andere kongruieren. Die Sprache ist alsdann keine Fessel, etwa wie ein Hemmschuh an dem Rade des Geistes, sondern wie ein zweites mit ihm parallel fortlaufendes Rad an seiner Achse (KLEIST, 1805, pág. 3)7

Imagens são invasivas até na meditação, e puxam palavras (e vice-versa).
Conforme Vygotsky (2002, pág. 87), “Qualquer análise da interação entre o pensamento e a palavra terá de principiar por investigar os diferentes planos e fases que um pensamento percorre antes de se encarnar nas palavras”. Dessa forma, graduemos (rumo ao mais complexo) o processo que vai da imaginação à fala, e desta à escrita, nos seguintes momentos: imaginação, pensamento (organização e conclusões para si), pensamento sobre como dizer (tradução rápida do pensamento) ou pensamento sobre como escrever (tradução lenta do pensamento), exteriorização (fala ou escrita). Para clarificar essa ideia, ajudará explicar melhor cada etapa.
Imaginação, do latim imaginatĭo, é justamente a capacidade de criar imagens mentais8. A imaginação é cinematográfica, mas fugidia, obnubilada e circular (sai e volta para o foco, às vezes se mescla ou se transforma a cada retorno) e nem sempre tende a alguma conclusão lógica. O cérebro busca preencher lacunas e, nem sempre, o faz de forma coerente, cronológica, sequencial e para uma direção lógica. O maior exemplo são os sonhos, expressão mais vívida dos processos imaginativos: um rosto conhecido pode se tornar em outro sem que, no entanto, o sonhador deixe de reconhecer a nova representação como a da primeira pessoa; daí a pouco, esta pode se tornar um animal; a história pode tomar outro rumo absurdamente diferente do que vinha tomando ou voltar a algum ponto já ultrapassado e, comumente, o sonho acaba sem chegar a algum final coerente e lógico9.
O imaginado pode surgir sem estímulo ou por estímulo. É menos dirigível do que o pensamento10, tanto que a mera suscitação de negação traz à mente a imagem do negado. Pensar é submeter esse mailström11 a regras lógicas, linguísticas, discursivas, preferenciais, para se alcançar determinada conclusão.
A imagem não será externalizada, comunicada, se não submetida ao pensamento, que lhe dá um pouco mais de concreção (um corpo exprimível), permitindo que seja traduzida para a fala ou para a escrita. As diferenças entre esses dois trabalhos de tradução é que parecem conduzir para a validação da hipótese que levantei no início.
A questão do pensamento para produzir a fala ou daquele para produzir a escrita pode ser resumidamente explicada fazendo-se uma correspondência com o trabalho das fibras musculares do corpo. A musculatura estriada esquelética têm fibras brancas e vermelhas. As brancas, de resposta rápida (explosão) e grande força, são de pronto emprego mas se esgotam rápido, não suportando esforços de longa duração. As vermelhas, de contração lenta e muito resistentes à fadiga, são apropriadas para exercícios de resistência. Ambos os tipos de fibras estão presentes em todos os grupos musculares do organismo, mas fatores genéticos determinam o predomínio de umas ou outras em cada indivíduo, o que, em tese, imporia sua aptidão e facilidade para esportes de força ou de resistência. Nesse ponto, faço uma analogia com o cérebro humano que, embora não seja tecido muscular, também teria, em cada indivíduo, maior propensão, por exemplo, para o raciocínio lógico-matemático ou para o raciocínio discursivo. Seguindo essa linha de pensamento, sugiro que algumas pessoas têm mais facilidade para a expressão oral, a fala – resposta rápida a estímulo imediato –, enquanto outras se expressam melhor por escrito, porque precisam remoer mais profunda e lentamente os pensamentos antes de externalizá-los com a clareza e exatidão que desejam (talvez esse desejo – autorregulação – seja marca desse grupo, e o que faz com que tenham certa limitação na comunicação falada, que exige resposta rápida).
Poder-se-ia argumentar que há quem se comunique muito bem tanto falando quanto por escrito. Sim, da mesma forma que existem atletas que se dão bem em provas de força e também nas de resistência, seja por efeito do treinamento ou por uma facilidade natural para as duas coisas. Mas, o que afirmo aqui é a propensão. As pessoas tendem a se polarizar em um lado ou em outro. Isso se exacerba e é mais notável nas atividades de alto rendimento. Se são muito boas correndo maratonas, não serão em tiros de cem metros. Se escrevem muito bem, provavelmente não serão tão boas debatendo ou discursando de improviso.
Outro ponto a reforçar é a questão da maior complexidade da escrita em relação à fala. Levando-se em conta que a fala é, grosso modo, uma tradução rápida da imaginação ou do pensamento em palavras, a escrita está pelo menos um nível acima em relação à complexidade: é a tradução da fala fabricada mentalmente mas não exteriorizada oralmente, que vai se demorar um pouco mais na mente, circulando por maior ou menor tempo, em um processo consciente e um pouco mais meticuloso de seleção e associação, para tentar sair por escrito com a exatidão e o efeito desejados (e sob as regras próprias desse meio de expressão, que são diferentes das da fala). O processo mental para a escrita seria comparável, em complexidade, com um monólogo (embora seja possível argumentar que a comparação não é cabível já que muitas vezes ele também ocorre, internamente, antes da fala):

A velocidade do discurso oral não se propicia a um processo complicado de formulação – e não deixa tempo para deliberações e opções. O diálogo implica a expressão imediata não pré-determinada. É constituído por respostas e réplicas: é uma cadeia de reações. Em comparação com isto, o monólogo é uma formação complexa dando ao seu autor tempo e vagar para uma cuidada e consciente elaboração lingüística. No discurso escrito, ao qual faltam os apoios situacionais, tem que se conseguir a comunicação por recurso exclusivo às palavras e suas combinações. (VYGOTSKY 2002, pág. 101).


Vygotsky (2002, págs. 99-101) acrescenta que como no discurso escrito o tom de voz, os gestos, as expressões faciais – que podem dar significado diferente às palavras – não estão presentes, é necessário que usemos muito mais palavras, de forma (escolha e colocação) muito mais exata, para deixar claro o sentido do que estamos a dizer. “O espírito que transcreve é aquele que está sempre negando. Ele reprime a sensorialidade, relega o gesto e a palavra a um nível subalterno e solicita da audição interna um esforço sem precedentes de articulação e de discernimento.” (DUFOURT, 1997, pág. 10).
Talvez seja possível dizer que as pessoas que têm maior facilidade de expressão por escrito do que pela fala são aquelas possuidoras de um mecanismo inibitório social mais sensível. Ou temem que os interlocutores interpretem o que venham a dizer de forma errada ou, então, não têm autoconfiança suficiente para exprimirem-se sobre determinados assuntos sem um raciocínio mais demorado e cuidadoso. Aquilo a que Robert Mckee, professor dos roteiristas de Hollywood, chama de “máscaras privadas” – os freios que impedem as pessoas de dizerem os pensamentos e sentimentos que lhes vêm à cabeça (e que ele afirma que se fossem expostos integralmente traumatizariam os outros) – provavelmente é mais limitante naqueles que optam pelo caminho mais complexo da escrita do que nos que se sentem mais confortáveis falando. O 'preço' da maior elaboração do raciocínio pelo escritor, processo mais penoso, seria compensado pela maior sensação de controle sobre o dito e sobre as possíveis interpretações que os outros poderiam lhe dar. Conforme Dufourt (1997, págs. 10-11), “[…] os artificios da escrita conduzem a novos modos de pensamento. […] A pena faz uma limpeza. Ela reorganiza tudo. Escrever é eliminar. […]. A escrita permite criar um mundo que não deve mais nada nem ao conformismo, nem a espontaneidade [ou seja, à interpretação]”. Nesse sentido, “A mediação gráfica é o artifício supremo, a arte dos substitutivos. […]” (ibidem), substituindo gestos, sons, imagens, sentidos, de forma mais cristalizada do que a fala.
“Não foi isso o que eu quis dizer”. Quem nunca disse ou pensou algo assim? Acontece porque utilizamos signos para comunicar, e signos são econômicos em sua representação. Estamos sempre à beira da ‘má’ interpretação. Quanto maior o repertório linguístico e seu domínio, maior a possibilidade de expressão mais exata, maior a especificidade. Mas a ‘boa’ interpretação, o ‘bom’ entendimento dependerão também do repertório do enunciatário (e de outros incontáveis fatores ideológicos, sociais, culturais, etc.). Não é possível ter domínio do significado. Se por um lado a fala tem, em relação à escrita, mais ruídos e perde na escolha minuciosa das palavras, por outro, a linguagem não verbal que lhe acompanha às vezes supre, com vantagem, as faltas e falhas que levariam a significados dúbios. Talvez seja falsa ou superestimada a sensação de controle do discurso escrito.
Então, se as vantagens são discutíveis, o que estaria levando tantas pessoas a migrarem da preferência pela comunicação falada para a escrita, ainda que muitas delas sejam, aparentemente, mal aparelhadas para sua utilização)?


O império do escrito


O preconceito linguístico tem sido muito discutido e não tem lugar na sociedade que se apoderou do textual, o assumiu como seu e passou a aplicá-lo a despeito das regras gramaticais, da norma culta ou de qualquer norma externa à prática que seja. Este empoderamento12 democrático tem transformado a expressão escrita (e vice-versa).
A linguagem dos celulares e das redes sociais é fonética, baseada não só nos sons, mas nas regras da fala. Muito abreviada (fds, kkkkk, kbç, vc, etc) e com recursos de ênfase, e sentimento (emoticons, trilha sonora, inclusão de vídeo ou imagem, etc.). Há um movimento de aproximação entre fala e escrita: migração da fala para a escrita (em tese um artefato mais complexo) mas, por outro lado também há uma simplificação e coloquialização dessa escrita.
A primeira hipótese levantada, no início do ensaio, de que o deslocamento de preferência, da comunicação falada para a escrita, seria uma resposta natural à complexificação do mundo e das relações agora parece, aqui nas conclusões, correta, mas um pouco vaga. Carece de uma enumeração mais específica dos pontos que se considera complexos, e da explicação do porquê da sua influência no processo. A justificativa de que o escrito, por permitir maior tempo e elaboração da expressão do que a fala, é mais conveniente para dar respostas nesta sociedade complexa, e de que o distanciamento físico entre as pessoas (característico da pós-modernidade), favorecem o fenômeno, também é plausível mas incompleta. Além desses motivos, há outros, talvez mais ligados aos meios, às fontes:
A propagação enorme dos computadores e da internet teve, já nos primeiros anos da sua popularização, impacto enorme na sociedade, tanto que surgiram gerações definidas principalmente pela relação com essas tecnologias (gerações X, Y, Z...). É interessante notar que são tecnologias com as quais a parte ativa da interação13 é predominantemente via teclado, textual portanto. Dos computadores instalados em pontos fixos surgiram os portáteis, os tablets, os iPad’s, os telefones celulares, iPhones, Smartphones, todos ainda com comandos de teclado (tradicionais, ou touchscreen14, ou até multitouch15). Em uma realidade que conta com 5 bilhões16 de celulares no mundo, para uma população de 7,5 bilhões17, sem falarmos nos outros aparelhos, fica óbvio que sua utilização tem transformado a forma de comunicação no mundo.
À utilização textual predominante (via vários tipos de teclados) das tecnologias, que interfere na relação das pessoas com a escrita, se juntam outros elementos da pós-modernidade – em grande parte surgidos como consequência dessas tecnologias – que também empurram a comunicação para o meio escrito: a individualidade exacerbada, que rechaça o contato entre as pessoas; o gosto pela “virtualidade” das relações; a possibilidade de criar e alimentar uma imagem de si (personagem, glamorização) que só pode ser sustentada à distância; a menor demonstração de sentimentos da mensagem escrita em comparação com a falada; a criação de “mundos fantásticos” insubsistentes às relações ‘reais’, etc.
Quero conduzi-los, nos próximos parágrafos, a uma outra questão, mais abstrata, mas que traz aprofundamento do viés psicológico da preferência pela escrita:
Estou convencido de que uma relação mais estreita pode ser criada entre os extremos imaginação e escrita. A chave estaria no meio, no pensamento inventivo do criador de histórias ficcionais. Escrever ficções é criar imagens e tentar transportá-las ao leitor através do escrito. O pensamento atua costurando ligações coerentes, situando as imagens em um tempo e espaço ficcionais, trazendo linearidade para a narrativa, com o objetivo mais comum (embora em uma chamada escrita de processo, em contraposição à de resultado, isso não seja essencial) de se chegar a um iter com início, meio e fim. A prática dessa escrita de ficção transforma o próprio mecanismo de imaginação, tanto que, no exercício de criar ficções, meus sonhos (que são, em tese, o ápice da imaginação sem limites) também começaram a ficar estruturados, passando a ter início, meio e fim, encadeados e lógicos.
Talvez, por esse tipo de expectativa de lógica, nós também tenhamos fascinação pelo cinema: as imagens (nossa forma de percepção mais imediata) têm continuidade, linearidade e lógica temporal e espacial, começo, meio e fim (diferente do onírico). E não há ansiedade por desfecho, porque ele já está prometido. Há o logos.
A segurança da lógica, de se chegar a uma conclusão com mais sentido, também parece ser maior na comunicação escrita do que na fala. Justamente porque o time da escrita é diferente, dá para aparar arestas, reformular várias vezes, trabalhar o efeito, antes de entregar. E todos temos medo de como vão nos entender e do conceito que farão de nós, principalmente na escrita, que é perene. Nesta sociedade da celebrização a nossa imagem tem um valor pessoal enorme. Mais um motivo para que se escolha um meio de se comunicar (a escrita), que embora mais complexo, assegure, ou pelo menos pareça assegurar, maior controle da “representação do eu na vida cotidiana” (parafraseando Goffman).

NOTAS
1 "Sociedade da sensação", ou “sociedade excitada” (TüRCKE, 2010), faz referência ao momento histórico atual, caracterizado pelo espetacular, o chamativo, pela hiperestimulação sensorial através das tecnologias, que agem psicologicamente como drogas anestesiantes a afastar as pessoas de sua situação concreta.

2 Genericamente tratados, seja letra de imprensa ou escrita cursiva.

3 Na verdade a gratuidade é do aplicativo, mas o utilizador precisa ter acesso a internet e, obviamente, também um aparelho que sirva de suporte ao software.

4 No sentido de ter que dispender qualquer esforço deliberado para se adaptar.

5 Não significando aqui o antônimo de “naturalmente”, mas sim no sentido de expediente habilidoso, artifício facilitador. Neste caso, a utilização do artifício é não deliberada, mas evolução natural (simples utilização de ferramenta intuída como mais útil e oportuna para o momento histórico).

6 Quando se fala “imagens” também se está referindo, para além do visual, a lembranças ou criação de sons, referências olfativas, táteis e gustativas.

7 “As fileiras das ideias e seus nomes vão lado a lado, e são congruentes os atos emocionais para um e outro. A linguagem segue, sem restrições, não como um freio da roda da mente, mas como uma segunda roda a ela paralela e contínua, rodando no seu [mesmo] eixo.” [tradução livre].

8 Daí, também, a sua relação com “criatividade”, que seria a capacidade de criar a partir da combinação de imagens ou ideias. Mas aí, de acordo com o significado restrito de imaginação e pensamento que foram adotados neste ensaio, a criatividade estaria englobada no âmbito dos pensamentos (caracterizados pela imaginação processada pelo diálogo psicológico interno do criador).

9 Na imaginação, como no sonho, identifica-se o ethos, elemento de credibilidade (porque parte do próprio imaginador/sonhador, que pode ser comparado ao enunciador de um discurso), mas nem sempre se identifica o pathos (paixão, efeito) e o logos (lógica).

10 Artistas são, ao que parece, mais familiarizados com a materialização onírico-concreta.

11 Turbilhão líquido.

12 Termo da moda, empregado aqui com o sentido de o sujeito atribuir-se o domínio, o poder de algo.

13 Talvez seja um termo inexato, por remeter à ideia de relação entre organismos inter-relacionados, pessoas.

14 Tela sensível ao toque.

15 Diferentes toques na tela executam diferentes funções.

16 Segundo um estudo realizado pela associação global de operadoras (GSMA) e divulgado em 27 de fevereiro de 2017, no Congresso Mundial do Celular em Barcelona. Cf: <https://oglobo.globo.com/economia/mais-de-cinco-bilhoes-de-pessoas-terao-celular-em-2017-20988439#ixzz4kaRkKxiQ> . Acessado em 20 de jun. 2017.

17 Conforme o “Relógio da População Mundial”, disponível em: <http://countrymeters.info/pt/> . Acesso em 20 de jun. 2017.


REFERÊNCIAS

DAMÁSIO, António R. O Erro de Descartes. Emoção, Razão e Cérebro Humano. Mem Martins Publicações Europa-América, 1995.


DUFOURT, Hughes. O Artifício da Escrita na Música Ocidental. Debates – Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Música. Nº 1, 1997. Centro de Letras e Artes Uni-Rio

KLEIST. Heinrich von. Über die Von der allmählichen Verfertigung der Gedanken beim Reden (Sobre a Elaboração Progressiva dos Pensamentos Através da Fala), 1805. Disponível em: <http://pubman.mpdl.mpg.de/pubman/item/escidoc:2352284/component/escidoc:2352283/Kleist_1805_Ueber_allmahliche.pdf> . Acessado em 07 jun. 2017.


TüRCKE, Christoph. Sociedade Excitada: filosofia da sensação. Tradução: Antônio A. S. Zuin... [et al]. Campinas: Ed. Unicamp, 2010, 323 p.


VYGOTSKY, Lev Semenovich. Pensamento e Linguagem. 2002. Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org). Acessado em 20 jun. 2017. Disponível em: <http://www.institutoelo.org.br/site/files/publications/5157a7235ffccfd9ca905e359020c413.pdf> .




domingo, 3 de dezembro de 2017

Literatura classificada: adulta, infanto-juvenil, impressa, digital – qual o tamanho das diferenças?





Juliano Barreto Rodrigues

O leitor infanto-juvenil de hoje é diferente daquele da minha época: conheci a internet já adulto. O livro impresso era o suporte que conhecia; o tempo para ler era diferente, não havia uma avalanche de informações sobre mim a todo segundo; as minhas escolhas de leitura eram mais pessoais, solitárias e independentes. Hoje, os meninos leem muito na tela do computador e do celular; escolhem por indicação de seus grupos ou de quem “seguem”; escaneiam o que lhes cai nas mãos, antes de efetivamente lerem, ou então, ficam só na leitura das partes que lhes interessam mais; com tempo exíguo e tanta coisa para fazer, é difícil as leituras longas, lentas, exclusivas; por outro lado, compartilham, interagem, colecionam, e remixam suas experiências com muita facilidade. Logicamente, estou generalizando.

Há uma leitura para adulto e outra para crianças e adolescentes? Na minha opinião, sim. Embora alguns temas sejam interessantes tanto para uns quanto para outros, há muitos que só interessam em certas fases da vida. Algumas temáticas profissionais, por exemplo, podem agradar determinado público adulto, mas não teriam o menor cabimento no universo infanto-juvenil. O tratamento dado ao de sexo, à violência, à degeneração psicológica e social, também precisa ser cuidadoso em uma fase de formação. A maneira de dizer as coisas também faz muita diferença: um mesmo tema pode ser tratado de forma sutil ou bruta, abstratamente ou de forma concreta, sugerindo reflexão ou chocando. A mágica do escritor está aí, na forma.

Formação. Para mim esta palavra resume a preocupação com a escrita feita para não adultos. Advogo enfaticamente uma literatura absolutamente livre de função moral para adultos. Porém, com ênfase ainda maior, defendo a necessidade de que toda literatura infanto-juvenil tenha cunho formativo-moral. O autor que se posiciona conforme o que eu disse, submete a um “filtro” toda a sua escrita, desde a escolha do tema, a caracterização das personagens, utilização ou não de imagens, a montagem do enredo e do conflito, até a decisão pelo final, que se não concludente e positivo, pelo menos não contrarie a impressão geral de que o livro trouxe uma mensagem de crescimento. Esta limitação na arte é o preço que o artista paga por se decidir a escrever para um público vulnerável. Excesso de zelo ou não, ainda que defensor ferrenho da liberdade da criação artística, prefiro, neste caso, pecar pelo exagero.

Outra coisa: a judicialização da humanidade, com todo o mundo processando todo mundo; a comunicação irrestrita, que tanto constrói quanto destrói rapidamente reputações, marcas, instituições – são motivos mais do que suficientes para que as editoras temam certa polícia moral, que não aceita bem a abordagem de temas tabu (nem na literatura adulta) ou a exposição de alguns temas, palavras e formas, para crianças e adolescentes.
                                         

Antigamente (não num passado distante, coisa de poucos anos atrás), um autor tinha tempo de introduzir devagar o leitor na história. Hoje, não. Se o título, a primeira frase, os primeiros parágrafos, não forem muito bem pensados para causar um efeito imediato, se os capítulos não forem curtos e subtitulados (o que causaria desespero em Dionísio Longino), com ganchos que puxem o interesse para o que vem a seguir, o livro simplesmente não será lido. O leitor mudou a forma de escrever. E não é um fenômeno só da literatura: Robert McKee, mestre dos roteiristas hollywoodianos, faz a mesma comparação relacionando cinema e as séries. Ele afirma que a dinâmica das séries – muito mais rápidas, imediatas e com uma sucessão de impactos emocionais e ganchos, com desdobramentos quase infinitos – é a causa de alcançarem tanto sucesso e mercado, atraindo a aposta de grandes estúdios e boa parte do investimento que antes era dirigido para os longa-metragem tradicionais (os não-tradicionais seguem uma lógica diferente, abusando da velocidade, dos efeitos especiais, da não-linearidade. São uma “modernização – como tem acontecido com os livros – do que se fazia há bem pouco tempo).

Os leitores e os espectadores atuais são cada vez mais interativos e participantes, não se contentam em ser guiados, linear e monotonamente, linha abaixo ou imagem além. Precisam de hiperlinks que os permitam escolher, ver e aprofundar só o que lhes interessa, e também de espaços onde possam comentar, avaliar, discutir, criticar, recriar, ressignificar, personalizar – mas também socializar – sua experiência. No contexto da hipercomunicação, todo mundo faz questão de ser tanto consumidor quanto formador de opinião. E ninguém tem tanta vontade de voz quanto o público juvenil.

O meio digital é o ambiente interativo por excelência, sem limitações temporais e, principalmente, espaciais. Nesse sentido estaria, em tese, vários passos além do livro impresso. Mas não é bem assim. Livros impressos têm sido muito lidos per esse público imerso no ambiente digital. O que eles fazem é trazer para seu “mundo” a sua experiência de leitura, seja compartilhando impressões, resenhas e listas, seja se agrupando em torno de temas e livros em comum, ou até cofinanciando novos projetos literários. Aquilo que os “velhos leitores” apaixonadamente alegavam na defesa do livro impresso – o cheiro, a textura, a facilidade de leitura, a portabilidade – também é (talvez contrariando quem vaticinava o fim do livro físico) exatamente o que também alegam os “novos leitores” para justificar sua preferência (ainda que muitos adquiram a versão digital por causa do preço). E é como eu disse: embora a tecnologia do livro seja basicamente a mesma ao longo dos séculos, sua “alma” (do design da capa e do miolo à técnica e estilo da escrita) tem mudado muito, e muito rapidamente. Está repaginado (perdoem o trocadilho), perfeitamente sincronizado com as mudanças ultrarrápidas da nossa sociedade.

Interatividade não é novidade no mundo editorial. Os livros-brinquedo permitem, há muito, uma forma diferente de relação com a palavra e a imagem. A própria referência a outros livros e textos, em rodapés de livros ou na parte  Referências Bibliográficas, sempre foram uma remissão – quase ao estilo hipertexto, ou seu precursor - para outras obras. Para além disso, Marisa Lajolo1, demonstrando como alguns narradores provocam a participação do leitor através de um jogo dialógico de descoberta de sentido, pergunta: “será que a literatura não foi sempre um game no sentido mais amplo da palavra?”. Ela já deixa insinuada a resposta quando trabalha a ideia de que nada é absolutamente novo nesse meio.


Slow reading e a leitura integral de grandes textos (em número de palavras mesmo), tem sido coisa para persistentes ou privilegiados que ainda têm tempo sobrando. Há coisas demais a fazer em tempo de menos. O processo de leitura da geração que já nasceu conectada é diferente daqueles da geração X, da qual faço parte. Sou da transição, vivi em um mundo mais lento e com relações mais táteis, gustativas e olfativas, e não quase exclusivamente visuais e auditivas como as de hoje. Os novos leem, naturalmente, de forma mais fragmentada, construindo ativamente sua leitura com os acessos a links, blogs, chats, etc., que os levam à experiência ou informação que desejam. Essa fragmentação não deve, de jeito nenhum, ser confundida com superficialidade - erro muito comum de muitos teóricos.


1 LAJOLO, Marisa. O livro digital infantil e juvenil. Revista Emília. Plataformas Digitais. 28 de ag. 2013. Disponível em: < http://revistaemilia.com.br/o-livro-digital-infantil-e-juvenil/>